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‘Mona Lisa Afogada’ sobrevive em máscara; entenda

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A pessoa mais famosa a se afogar no Rio Sena não tem identidade. Trata-se da “L’Inconnue de la Seine” (A Desconhecida do Sena).

Eis a história dela. No final do século 19, o corpo de uma jovem não identificada foi retirado do Sena em Paris. Como não havia ferimentos no cadáver, supôs-se tratar-se de um caso de suicídio. O patologista que recebeu o corpo dela no necrotério ficou tão encantado com sua beleza que chamou um “mouleur” (um preparador de moldes) para preservar o rosto dela numa máscara mortuária de gesso.

Nas décadas que se seguiram, a máscara foi produzida em massa e vendida como item decorativo para as paredes de lares particulares e estúdios, primeiro em Paris e, depois, em todo o mundo. L’Inconnue tornou-se uma musa de artistas, poetas e outros escritores, entre eles Pablo Picasso, Man Ray, Rainer Maria Rilke e Vladimir Nabokov. L’Inconnue pendia da parede do estúdio de Albert Camus, que a chamava de “Mona Lisa afogada”. Ela foi a inspiração de alguns filmes de François Truffaut.

Hoje em dia, L’Inconnue segue viva graças à oficina administrada por uma família no subúrbio de Arcueil, ao sul de Paris. Fundada em 1871, a oficina L’Atelier Lorenzi cria perfeitas cópias de gesso feitas à mão de estatuetas, bustos e máscaras, atividade que desempenha há quatro gerações. Mas é mais conhecida pelo trabalho com a L’Inconnue.

Numa caixa guardada no segundo andar do ateliê fica o objeto mais precioso da família: um molde de gesso amarelado da máscara mortuária que seria da L’Inconnue. “Se perguntar se o molde foi feito por meu bisavô, não saberia responder”, disse Laurent Lorenzi Forestier, que administra o negócio. “Se perguntar como o necrotério organizou a confecção do molde, não sei responder. Tudo o que sei é que temos um molde dessa época”.

O rosto de L’Inconnue tem expressão serena. As bochechas são redondas e cheias, e a pele, lisa. É bonita, mas sem ter uma beleza clássica. É o mistério de seu meio-sorriso que nos assombra. Falta definição em seus lábios, talvez o resultado da deterioração do corpo. Ela parece feliz na morte ou, talvez, apenas adormecida.

Os céticos afirmam que a mulher retratada na máscara não pode ser vítima de afogamento, pois os traços de seu rosto são demasiadamente perfeitos. Alguns especialistas dizem que era prática comum na época retocar as máscaras mortuárias.

“Talvez o molde tenha sido feito antes de os músculos do rosto dela começarem a se deteriorar”, disse Juan José Garcia, mestre fazedor de moldes com 29 anos de experiência na casa. “Talvez. É possível”.

A oficina do século 19 tem muitos outros tesouros: cópias de antigos bustos egípcios, gregos e romanos; estatuetas medievais; nus do Renascimento; cavalos policromáticos da antiguidade chinesa. As obras podem ser caras: a produção de um molde pode custar US$ 2 mil, e a reprodução, mais de US$ 1 mil.

Os maiores sucessos de vendas da empresa são bustos de Marianne, símbolo da república francesa, encontrados na maioria dos escritórios públicos da França; e L’Inconnue, é claro (US$ 130 pela máscara em gesso branco, US$ 175 pela versão envernizada).

Em 2008, o preço do aluguel obrigou a família a abandonar o endereço original da oficina na Rue Racine, perto do Sena, mudando o negócio para Arcueil. Em seguida, crises internas na família prejudicaram o andamento dos negócios.

“Parecia não haver solução a não ser fechar as portas”, disse Forestier. “Mas foi meu bisavô quem abriu o ateliê ao se mudar para Paris, vindo de uma cidadezinha na Toscana. Temos mais de um século de história. Não podia deixar isso acontecer”.

Fonte: Estadão Conteúdo

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